CAPISTRANO: Igreja presta assistência espiritual e material na seca
Sem chuva há cinco anos seguidos, a população do Interior cearense sofre as consequências de uma estiagem impiedosa. Pelo sertão adentro lavouras secas, plantações morreram, açudes secam, rios se desfazem, chão rachado. E, quando a água não vem nem manda sinal, o sertanejo só encontra uma solução: clamar a Deus. Além de esperança e conforto, a Igreja atua por meio de iniciativas que visam amenizar o drama que a seca traz, ajudando na convivência com a falta d'água e trazendo alternativas para famílias e comunidades em sofrimento.
O caso mais exemplar vem deste Município, a cerca de 110 quilômetros da Capital, Fortaleza, no Maciço de Baturité. Os moradores em situação de abastecimento mais crítica são assistidos com iniciativa da paróquia de Capistrano, que realiza semanalmente a distribuição de água que é acumulada em cinco cisternas administradas pela Igreja Católica. A iniciativa começou pelo padre canadense Bernardo Bourassa, que chegou à cidade em 1968 e passou quase 30 anos em Capistrano.
"Você não sabe o alívio que é ter essa água. Um monte de gente compra, mas e quem não pode? O que seria de nós se não fossem essas cisternas?", indaga a aposentada Rosiley França Pereira.

Até hoje, em dias de quarta-feira, a população faz fila para pegar água. A maior das cisternas acumula quase 3 milhões de litros. E parece até milagre: a distribuição já ocorre há 26 anos ininterruptamente, e não há seca que tenha posto fim à água acumulada. Pelo contrário, das cinco cisternas há até uma em que a água nunca foi usada.
Pároco de Capistrano há três anos, Valdenor Cesário do Nascimento afirma que o trabalho por meio das cisternas traz alívio para os moradores. "As pessoas que necessitam e que não podem comprar a água, fazem um cadastro na paróquia. Não pagam nada", afirma. Essa ação conforta 638 pessoas na cidade. "O sofrimento tem sido enorme e cabe à Igreja cumprir a sua função social de amparo ao povo que necessita de ajuda. É nosso dever, como Igreja não apenas dar o conforto espiritual, mas se doar e dar ao próximo", refletiu.
Luís Casimiro de Abreu, amigo do falecido padre Bernardo Bourassa, conta que o canadense decidiu fazer as cisternas após ver a necessidade de água na cidade. "Ele viu muito a necessidade do povo sem água, que tinha que ir buscar no açude, e ainda ruim e poluída. Como ele como tinha condição, teve a ideia de fazer a cisterna", relata Casimiro. As obras foram custeadas com a ajuda da família canadense do padre. "Não teve um tostão de nenhum fiel", completa o amigo do religioso, que de tão venerado na cidade pela sua obra, teve os restos mortais depositados na Igreja de Capistrano.
Assistência
Esse auxílio à população em momentos difíceis é uma constante na história da Igreja, que sempre teve viva a preocupação e o assistencialismo. As ações são colocadas em prática por meio dos mais diversos meios, incluindo a Campanha da Fraternidade. Em 2004 o tema foi Fraternidade e Água. Outras edições também já focaram na preocupação com os recursos naturais para a manutenção da vida.
A assistência também se dá por meios de tornar acesa a fé do povo para dias mais prósperos. A Caminhada da Seca, realizada há 34 anos em Senador Pompeu, no Sertão Central do Ceará, evidencia esta situação. Promovida pela Igreja, o ato leva as pessoas em uma procissão de oração por uma estrada que leva ao açude que abastece o município, o Patu, para pedir por mais água e pela intercessão dos que foram mortos pela seca durante o período histórico da construção do reservatório.
Ainda tímidas
Para o historiador e antropólogo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, as ações da Igreja são consideradas tímidas, embora reconheça que a instituição tem grande colaboração com o enfrentamento dos problemas que advém de períodos turbulentos, como as estiagens. "Historicamente, ela nunca pôde fazer nada mais sério porque não se conhecia as tecnologias. De um modo geral, a Igreja não tinha um papel muito atuante nas ações. Era algo muito mais espiritual no princípio. Depois foi mudando", explica Diatahy.
Mesmo diante de limitações, para o professor, a Igreja teve nomes importantes que militaram em defesa das ações sociais, como dom Fragoso, ex-bispo de Crateús. Atualmente, Eduardo Diatahy analisa uma ação mais tímida em relação à postura tomada pela Igreja sobre essa questão. "Eles desconhecem o que está acontecendo no mundo, pensam só em procissões, orações, têm uma visão social muito restrita", opinou.
O arcebispo de Fortaleza, dom José Antônio Aparecido Tosi Marques, destaca que há um forte trabalho que deve ser entendido como promoção à solidariedade. "Na Igreja, durante toda a história houve sempre uma preocupação com a situação de necessidade do povo, especialmente a respeito da seca. Nos locais onde está, ela sempre foi presente nas situações de necessidade do povo", disse.
Ele lembrou a trajetória de dom Antonio de Almeida Lustosa, que também foi arcebispo da Capital. "Ele visitava todo o Interior. Foi um grande defensor a respeito da questão da seca e do povo do Ceará". Dom José destaca que as ações em atenção ao sofrimento gerado pela seca ao cearense, têm sido ainda maiores. "Temos procurado promover ações continuas que possam levar a água onde falta, seja por meio de ações da própria Igreja ou de diálogos e parcerias, intercedendo pelo povo, lidado com a realidade da convivência com o Semiárido, fora as ações emergenciais que em todo o canto se faz", concluiu o religioso.
Com o governo
A iniciativa da igreja tem despertado a atenção do governo do Estado que, desde 2015, realiza reuniões periódicas com membros da CNBB. Foram duas naquele ano e duas em 2016. A última delas, no início de novembro, com bispos da Diocese do Crato, Limoeiro, Crateús, Sobral, Tianguá, Quixadá, Itapipoca e Iguatu. Segundo a Casa Civil, na última reunião, Camilo Santana teria articulado com os bispos apoio para auxiliar na retomada das obras da transposição do São Francisco.
O governo do Estado e a CNBB têm parcerias em diversas áreas. O governador Camilo Santana já destacou que o "diálogo com a Igreja é importantíssimo para que possamos atender às demandas da população mais pobre do nosso estado".
Dom José Aparecido disse que "ultimamente, os bispos do Ceará têm procurado levar à frente, com o governo do estado, formas de colaborar com esse trabalho. É uma parceria de respeito e de colaboração, na qual se tem procurado fazer para o bem comum de nosso povo que é interesse da sociedade e da Igreja", frisou o arcebispo.
Fonte: Diário do Nordeste - Avelino Neto - Fotos/Adaptação: Rochinha
Sem chuva há cinco anos seguidos, a população do Interior cearense sofre as consequências de uma estiagem impiedosa. Pelo sertão adentro lavouras secas, plantações morreram, açudes secam, rios se desfazem, chão rachado. E, quando a água não vem nem manda sinal, o sertanejo só encontra uma solução: clamar a Deus. Além de esperança e conforto, a Igreja atua por meio de iniciativas que visam amenizar o drama que a seca traz, ajudando na convivência com a falta d'água e trazendo alternativas para famílias e comunidades em sofrimento.
O caso mais exemplar vem deste Município, a cerca de 110 quilômetros da Capital, Fortaleza, no Maciço de Baturité. Os moradores em situação de abastecimento mais crítica são assistidos com iniciativa da paróquia de Capistrano, que realiza semanalmente a distribuição de água que é acumulada em cinco cisternas administradas pela Igreja Católica. A iniciativa começou pelo padre canadense Bernardo Bourassa, que chegou à cidade em 1968 e passou quase 30 anos em Capistrano.
"Você não sabe o alívio que é ter essa água. Um monte de gente compra, mas e quem não pode? O que seria de nós se não fossem essas cisternas?", indaga a aposentada Rosiley França Pereira.

Até hoje, em dias de quarta-feira, a população faz fila para pegar água. A maior das cisternas acumula quase 3 milhões de litros. E parece até milagre: a distribuição já ocorre há 26 anos ininterruptamente, e não há seca que tenha posto fim à água acumulada. Pelo contrário, das cinco cisternas há até uma em que a água nunca foi usada.
Pároco de Capistrano há três anos, Valdenor Cesário do Nascimento afirma que o trabalho por meio das cisternas traz alívio para os moradores. "As pessoas que necessitam e que não podem comprar a água, fazem um cadastro na paróquia. Não pagam nada", afirma. Essa ação conforta 638 pessoas na cidade. "O sofrimento tem sido enorme e cabe à Igreja cumprir a sua função social de amparo ao povo que necessita de ajuda. É nosso dever, como Igreja não apenas dar o conforto espiritual, mas se doar e dar ao próximo", refletiu.
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| Padre Valdenor |
Luís Casimiro de Abreu, amigo do falecido padre Bernardo Bourassa, conta que o canadense decidiu fazer as cisternas após ver a necessidade de água na cidade. "Ele viu muito a necessidade do povo sem água, que tinha que ir buscar no açude, e ainda ruim e poluída. Como ele como tinha condição, teve a ideia de fazer a cisterna", relata Casimiro. As obras foram custeadas com a ajuda da família canadense do padre. "Não teve um tostão de nenhum fiel", completa o amigo do religioso, que de tão venerado na cidade pela sua obra, teve os restos mortais depositados na Igreja de Capistrano.
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| Padre Bernardo (falecido) |
Assistência
Esse auxílio à população em momentos difíceis é uma constante na história da Igreja, que sempre teve viva a preocupação e o assistencialismo. As ações são colocadas em prática por meio dos mais diversos meios, incluindo a Campanha da Fraternidade. Em 2004 o tema foi Fraternidade e Água. Outras edições também já focaram na preocupação com os recursos naturais para a manutenção da vida.
A assistência também se dá por meios de tornar acesa a fé do povo para dias mais prósperos. A Caminhada da Seca, realizada há 34 anos em Senador Pompeu, no Sertão Central do Ceará, evidencia esta situação. Promovida pela Igreja, o ato leva as pessoas em uma procissão de oração por uma estrada que leva ao açude que abastece o município, o Patu, para pedir por mais água e pela intercessão dos que foram mortos pela seca durante o período histórico da construção do reservatório.
Ainda tímidas
Para o historiador e antropólogo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, as ações da Igreja são consideradas tímidas, embora reconheça que a instituição tem grande colaboração com o enfrentamento dos problemas que advém de períodos turbulentos, como as estiagens. "Historicamente, ela nunca pôde fazer nada mais sério porque não se conhecia as tecnologias. De um modo geral, a Igreja não tinha um papel muito atuante nas ações. Era algo muito mais espiritual no princípio. Depois foi mudando", explica Diatahy.
Mesmo diante de limitações, para o professor, a Igreja teve nomes importantes que militaram em defesa das ações sociais, como dom Fragoso, ex-bispo de Crateús. Atualmente, Eduardo Diatahy analisa uma ação mais tímida em relação à postura tomada pela Igreja sobre essa questão. "Eles desconhecem o que está acontecendo no mundo, pensam só em procissões, orações, têm uma visão social muito restrita", opinou.
O arcebispo de Fortaleza, dom José Antônio Aparecido Tosi Marques, destaca que há um forte trabalho que deve ser entendido como promoção à solidariedade. "Na Igreja, durante toda a história houve sempre uma preocupação com a situação de necessidade do povo, especialmente a respeito da seca. Nos locais onde está, ela sempre foi presente nas situações de necessidade do povo", disse.
Ele lembrou a trajetória de dom Antonio de Almeida Lustosa, que também foi arcebispo da Capital. "Ele visitava todo o Interior. Foi um grande defensor a respeito da questão da seca e do povo do Ceará". Dom José destaca que as ações em atenção ao sofrimento gerado pela seca ao cearense, têm sido ainda maiores. "Temos procurado promover ações continuas que possam levar a água onde falta, seja por meio de ações da própria Igreja ou de diálogos e parcerias, intercedendo pelo povo, lidado com a realidade da convivência com o Semiárido, fora as ações emergenciais que em todo o canto se faz", concluiu o religioso.
Com o governo
A iniciativa da igreja tem despertado a atenção do governo do Estado que, desde 2015, realiza reuniões periódicas com membros da CNBB. Foram duas naquele ano e duas em 2016. A última delas, no início de novembro, com bispos da Diocese do Crato, Limoeiro, Crateús, Sobral, Tianguá, Quixadá, Itapipoca e Iguatu. Segundo a Casa Civil, na última reunião, Camilo Santana teria articulado com os bispos apoio para auxiliar na retomada das obras da transposição do São Francisco.
O governo do Estado e a CNBB têm parcerias em diversas áreas. O governador Camilo Santana já destacou que o "diálogo com a Igreja é importantíssimo para que possamos atender às demandas da população mais pobre do nosso estado".
Dom José Aparecido disse que "ultimamente, os bispos do Ceará têm procurado levar à frente, com o governo do estado, formas de colaborar com esse trabalho. É uma parceria de respeito e de colaboração, na qual se tem procurado fazer para o bem comum de nosso povo que é interesse da sociedade e da Igreja", frisou o arcebispo.
Fonte: Diário do Nordeste - Avelino Neto - Fotos/Adaptação: Rochinha



